O texto de Ex. 20:2-17 contém algo em torno de 172 palavras e o quarto mandamento, sobre o Sábado, representa cerca de um terço disso, com 55 palavras, ou seja, ele forma metade de todo o resto do Decálogo (55 palavras para o quarto mandamento e 117 para os outros nove mandamentos). Isso, por si só, já demonstra a relevância do Sábado dentro de texto (cf. Doukhan, 2004, p. 18).
Mas a centralidade do Sábado dentro da unidade do Decálogo também se dá por sua transitividade entre leis que se referem unicamente a divindade (os três primeiros mandamentos) e leis que se referem unicamente a humanidade (os cinco últimos mandamentos).
Outro fator relevante é que o texto referente ao quarto mandamento está, diferentemente do restante, marcado por uma clara inclusão, que se dá pelo paralelo entre Ex. 20:8 e o final de Ex. 20:11 (cf. Mueller, 2003, p. 144):
זָכ֛וֹר אֶת־י֥וֹם הַשַּׁבָּ֖ת לְקַדְּשֽׁוֹ:
Lembra o dia do sábado para santificá-lo.
עַל־כֵּ֗ן בֵּרַ֧ךְ יְהוָֹ֛ה אֶת־י֥וֹם הַשַּׁבָּ֖ת וַֽיְקַדְּשֵֽׁהוּ:
portanto abençoou YAHWEH o dia do sábado e o santificou.
Nos dois casos o dia de sábado está ligado a raiz קדשׁ (santificar) no tronco piel. Nos dois casos o uso da raiz aparece depois da construção construta definida que envolve sinal do objeto direto (אֶת) e dois substantivos (י֥וֹם e שַּׁבָּ֖ת). A diferença é que em Ex. 20:8 o homem é instado a santificá-lo e em Ex. 20:11o próprio Deus o santifica.
Essa inclusão aponta para o próprio caráter dialógico do Sábado (cf. Siqueira, 2005, p. 444), pois a convocação do homem a santificar o Sábado se coloca em paralelo com a santificação dele (Sábado) por Deus. Ainda é possível perceber que a inclusão parece determinar uma estrutura no texto:
A - O homem deve lembrar do Sábado para santificar (Ex. 20:8)
B - Seis dias o homem faz todo o trabalho (Ex. 20:9)
C - O sétimo dia é de Deus, por isso o homem (e sua família, seus animais, etc., tudo da porta para dentro) não deve trabalhar (Ex. 20:10)
B' - Seis dias Deus fez todo o trabalho (Ex. 20:11a)
C' - O sétimo dia é o descanso dEle (Ex. 20:11b)
A' - Deus abençoa o Sábado e o santifica (Ex. 20:11c)
Nessa estrutura, além da inclusão já destacada entre Ex. 20:8 e 20:11c (com repetição de raiz e da cadeia construta, mas com inversão de sujeito), temos mais dois paralelos. O primeiro é entre os "seis dias" (שֵׁשֶׁת יָמִים) que em Ex. 20:9 se referem ao homem e o que ele faz (עשה), mas em Ex. 20:11a se referem ao que Deus faz (עשה). Nesse paralelo, mais uma vez ocorre repetição de raiz e de cadeia construta e, novamente também, inversão de sujeito.
O segundo paralelo na estrutura de Ex. 20:8-11, além da inclusão, é entre o "sétimo dia" (יוֹם הַשְּׁבִיעִי) que em Ex. 20:9 é atribuído como Sábado para YAHWEH e, por isso, todo o trabalho do homem é proibido e não somente ao indivíduo, mas a sua família, seus servos, seus animais e até ao estrangeiro que estiver dentro de sua casa. Já em Ex. 20:11b a construção, mais simples e curta, apresenta o descanso de Deus no sétimo dia (יוֹם הַשְּׁבִיעִי), indicando cessação da obra dEle, principalmente pelo uso do verbo נוּחַ, que indica repouso no sentido de parar de movimentar-se (cf. Koehler e Baumgartner, 2001, p. 679).
Os três paralelos indicam que a estrutura está dividida em duas partes: a primeira que se refere ao homem e sua relação com o Sábado, com Deus e com os que estão próximos e na sua esfera pessoal (das portas para dentro) e a segunda parte que se refere a Deus e Sua relação com o Sábado e com a Criação.
A inclusão indica a estrutura e a estrutura ratifica a inclusão. Em todos os casos, o Sábado é colocado como um chamado a imitação divina (imitatio Dei) e esse seu caráter peculiar é reforçado pela ligação com o texto da Criação de Gn. 2:1-3 (cf. LaRondelle, 2005, p. 8). Terence Fretheim comenta essa relação da seguinte forma:
O descanso de Deus é um ato divino que constrói dentro da ordem de cada coisa criada um ritmo de trabalho/descanso. Somente quando esse ritmo é honrado por todos a criação é aquilo que Deus planejou que fosse. O sábado é, então, um recurso divinamente concedido para todas as criaturas estarem em sintonia com a ordem das coisas criadas. Acima de tudo, guardar o sábado é um ato de guardar a criação. (FRETHEIM, 1991, p. 230)
A relação com a Criação é, em parte, a originalidade do Sábado, pois lhe confere um caráter diferenciado e até antitético ao sistema Babilônico e Assírio, que também tinha um sábado (šabattu ou šapattu). Enquanto esse sábado mesopotâmico era um dia marcado com relação a lua cheia e apontado para adoração dos corpos celestes, jejum e atos de aflição diante dos deuses, o Sábado de Ex. 20:8-11 era um dia de descanso, de benção e de adoração daquEle que fez os corpos celestes e criou todas as coisas . O Sábado do quarto mandamento, com sua ligação direta com a Criação (Gn. 2:1-3) independe de qualquer fenômeno natural ou humano e se firma como um presente divino fiado exclusivamente na ação dEle de criar (cf. Cassuto, 2005, p. 244-245).
A ênfase no sete é curiosa. O quarto mandamento inicia com a sétima letra do alfabeto hebraico (ז). E intencionalmente as relações sabáticas apontadas em Ex. 20:10 também são sete: você, filho, filha, servo, serva, gado, e estrangeiro. A idéia parece ser clara: o Sábado para YAHWEH é o dia da plenitude das relações da criação com ela mesma e da criação com seu Criador.
Outro aspecto relevante do Sábado dentro do Decálogo é sua relação com Ex. 20:1 e a libertação do Egito que fica clara em Dt. 5:12-15. Pois enquanto o Faraó oprimia o povo com escravidão e trabalho, Deus provê descanso a cada sete dias: "Nesse mandamento Israel quebra decisivamente com o sistema faraônico de produção e consumo" (BRUGGEMANN, 1999, p. 50).
CONCLUSÃO
A forma do Decálogo aponta para seu conteúdo indivisível e seu contexto é um contexto de aliança entre Deus e Seu povo. Essa forma indivisível é um diálogo entre a ação do indivíduo para com Deus e dele com outros indivíduos. A inovação se dá exatamente pela igualdade dada aos dois aspectos dentro da estrutura de Ex. 20:2-17.
Já disposição de Ex. 20:8-11 demarcado por uma inclusão que o separa do restante do texto, também o estabelece como uma síntese dialógica do próprio Decálogo, uma vez que no Sábado, a relação entre os homens e deles com Deus é mediada pela imitação dEle pelos homens. Como coloca Abraham Heschel:
A arte de guardar o sétimo dia é a arte de pintar na tela do tempo a misteriosa grandiosidade do clímax da criação: com Ele santificou o sétimo dia, assim devemos nós. O amor pelo Sábado é o amor do homem pelo que ele e Deus tem em comum. Nossa observância do dia do Sábado é uma paráfrase da Sua santificação do sétimo dia. (HESCHEL, 2005, p. 16)
A estrutura de Ex. 20:8-11 firma que a nossa santificação do Sábado é a santificação de Deus, através do reconhecimento dEle como Criador, fonte de toda existência, e do meu vizinho/próximo como meu igual a quem devo respeito e amor (cf. Doukhan, 2004, p. 15, 18).
Shabbat Shalom!
*parte final de um artigo a ser publicado na revista parousia no final de abril
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