terça-feira, 7 de dezembro de 2010

"Vestígios" - Ferreira Gullar *

Onde o morto deitou-se
quando vivo

(queimado de césio
até a medula)

na cama de hospital
não resta rastro

nem resta mesmo a cama
os lençóis
que o leito foi desfeito
e refeito para outros
que ali morreram
sem deixar marca

(pois tudo a lavanderia
apaga, menos
a memória
que vira cimento ferro alumínio
tubos de plástico)

mas
como mostrar os vestígios
da morte
os traços
do corpo tornado fósforo?

(a chama mortiça do câncer
a consumi-los)?

Pintando-os
na tela?
como?
arrastando a cama do hospital
para o museu de arte moderna?
expondo
o corpo
do morto?
a cama foi desfeita
o cadáver inumado
o quarto varrido
e desinfetado

É mesmo que nada
evocá-lo pintado
(na tela)
daí porque
só restou a Siron
imprimir as marcas da morte ausente
e vil
no leito de concreto
metáfora brutal
da vida que explodiu


*formato original alterado

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

"A Morte" - Ferreira Gullar *

A morte não tem avenidas iluminadas
não tem caixas de som atordoantes
tráfego engarrafado
não tem praias
(...)**
não tem telefonemas que não vêm nunca

a morte
não tem culpas
nem remorsos
nem perdas
não tem
lembranças doídas de mortos
nem festas de aniversário

a morte
não tem falta de sentido
não tem vontade de morrer
não tem desejos
aflições
o vazio vazio da vida

a morte não tem falta de nada
não tem nada
é nada
a paz do nada



*a disposição espacial da poesia foi comprometida pela limitação do site
** por motivos de consciência alheia, esse verso foi censurado (evitando possíveis reações de constrangimento).