segunda-feira, 29 de abril de 2013

drinking at the sources

alguns livros, quando lidos, nos impactam e mudam nossa maneira de pensar sobre uma série de coisas.
lembro-me como as palavras do dr Jacques Doukhan me tomaram por completo. drinking at the sources me trouxe maravilhamento e paixão.
hoje, por ter que escrever um artigo sobre a nova aliança e a missão de elias, me deparei com uma das citações que havia marcado, 11-12 anos antes (2002! quando era estudante de teologia) e que me fizeram ver Jesus e Seu ministério de outra maneira:

"the new covenant is a deepening internalizing of the old"

ele escreveu isso baseado em Jeremias 31:31-34.
essa frase definiu muito da minha vida.
ver o texto bíblico como um contínuo, como um crescendo, como uma intensificação da verdade, fez toda a diferença pra mim.

minha oração é que eu possa internalizar profundamente a Lei no meu coração para viver de acordo com ela. foi isso que fez o Messias. isso era(é) o Messias.
que eu seja um com ELE. que ELE me recrie. quero viver nELE para que ELE viva em mim.

shalom

sexta-feira, 12 de abril de 2013

o sábado e o decálogo*

O texto de Ex. 20:2-17 contém algo em torno de 172 palavras e o quarto mandamento, sobre o Sábado, representa cerca de um terço disso, com 55 palavras, ou seja, ele forma metade de todo o resto do Decálogo (55 palavras para o quarto mandamento e 117 para os outros nove mandamentos). Isso, por si só, já demonstra a relevância do Sábado dentro de texto (cf. Doukhan, 2004, p. 18).
Mas a centralidade do Sábado dentro da unidade do Decálogo também se dá por sua transitividade entre leis que se referem unicamente a divindade (os três primeiros mandamentos) e leis que se referem unicamente a humanidade (os cinco últimos mandamentos).
Outro fator relevante é que o texto referente ao quarto mandamento está, diferentemente do restante, marcado por uma clara inclusão, que se dá pelo paralelo entre Ex. 20:8 e o final de Ex. 20:11 (cf. Mueller, 2003, p. 144):

זָכ֛וֹר אֶת־י֥וֹם הַשַּׁבָּ֖ת לְקַדְּשֽׁוֹ:

Lembra o dia do sábado para santificá-lo.



עַל־כֵּ֗ן בֵּרַ֧ךְ יְהוָֹ֛ה אֶת־י֥וֹם הַשַּׁבָּ֖ת וַֽיְקַדְּשֵֽׁהוּ:


portanto abençoou YAHWEH o dia do sábado e o santificou.


Nos dois casos o dia de sábado está ligado a raiz קדשׁ (santificar) no tronco piel. Nos dois casos o uso da raiz aparece depois da construção construta definida que envolve sinal do objeto direto (אֶת) e dois substantivos (י֥וֹם e שַּׁבָּ֖ת). A diferença é que em Ex. 20:8 o homem é instado a santificá-lo e em Ex. 20:11o próprio Deus o santifica.
Essa inclusão aponta para o próprio caráter dialógico do Sábado (cf. Siqueira, 2005, p. 444), pois a convocação do homem a santificar o Sábado se coloca em paralelo com a santificação dele (Sábado) por Deus. Ainda é possível perceber que a inclusão parece determinar uma estrutura no texto:

A - O homem deve lembrar do Sábado para santificar (Ex. 20:8)
B - Seis dias o homem faz todo o trabalho (Ex. 20:9)
C - O sétimo dia é de Deus, por isso o homem (e sua família, seus animais, etc., tudo da porta para dentro) não deve trabalhar (Ex. 20:10)
B' - Seis dias Deus fez todo o trabalho (Ex. 20:11a)
C' - O sétimo dia é o descanso dEle (Ex. 20:11b)
A' - Deus abençoa o Sábado e o santifica (Ex. 20:11c)

Nessa estrutura, além da inclusão já destacada entre Ex. 20:8 e 20:11c (com repetição de raiz e da cadeia construta, mas com inversão de sujeito), temos mais dois paralelos. O primeiro é entre os "seis dias" (שֵׁשֶׁת יָמִים) que em Ex. 20:9 se referem ao homem e o que ele faz (עשה), mas em Ex. 20:11a se referem ao que Deus faz (עשה). Nesse paralelo, mais uma vez ocorre repetição de raiz e de cadeia construta e, novamente também, inversão de sujeito.
O segundo paralelo na estrutura de Ex. 20:8-11, além da inclusão, é entre o "sétimo dia" (יוֹם הַשְּׁבִיעִי) que em Ex. 20:9 é atribuído como Sábado para YAHWEH e, por isso, todo o trabalho do homem é proibido e não somente ao indivíduo, mas a sua família, seus servos, seus animais e até ao estrangeiro que estiver dentro de sua casa. Já em Ex. 20:11b a construção, mais simples e curta, apresenta o descanso de Deus no sétimo dia (יוֹם הַשְּׁבִיעִי), indicando cessação da obra dEle, principalmente pelo uso do verbo נוּחַ, que indica repouso no sentido de parar de movimentar-se (cf. Koehler e Baumgartner, 2001, p. 679).
Os três paralelos indicam que a estrutura está dividida em duas partes: a primeira que se refere ao homem e sua relação com o Sábado, com Deus e com os que estão próximos e na sua esfera pessoal (das portas para dentro) e a segunda parte que se refere a Deus e Sua relação com o Sábado e com a Criação.
A inclusão indica a estrutura e a estrutura ratifica a inclusão. Em todos os casos, o Sábado é colocado como um chamado a imitação divina (imitatio Dei) e esse seu caráter peculiar é reforçado pela ligação com o texto da Criação de Gn. 2:1-3 (cf. LaRondelle, 2005, p. 8). Terence Fretheim comenta essa relação da seguinte forma:

O descanso de Deus é um ato divino que constrói dentro da ordem de cada coisa criada um ritmo de trabalho/descanso. Somente quando esse ritmo é honrado por todos a criação é aquilo que Deus planejou que fosse. O sábado é, então, um recurso divinamente concedido para todas as criaturas estarem em sintonia com a ordem das coisas criadas. Acima de tudo, guardar o sábado é um ato de guardar a criação. (FRETHEIM, 1991, p. 230)


A relação com a Criação é, em parte, a originalidade do Sábado, pois lhe confere um caráter diferenciado e até antitético ao sistema Babilônico e Assírio, que também tinha um sábado (šabattu ou šapattu). Enquanto esse sábado mesopotâmico era um dia marcado com relação a lua cheia e apontado para adoração dos corpos celestes, jejum e atos de aflição diante dos deuses, o Sábado de Ex. 20:8-11 era um dia de descanso, de benção e de adoração daquEle que fez os corpos celestes e criou todas as coisas . O Sábado do quarto mandamento, com sua ligação direta com a Criação (Gn. 2:1-3) independe de qualquer fenômeno natural ou humano e se firma como um presente divino fiado exclusivamente na ação dEle de criar (cf. Cassuto, 2005, p. 244-245).
A ênfase no sete é curiosa. O quarto mandamento inicia com a sétima letra do alfabeto hebraico (ז). E intencionalmente as relações sabáticas apontadas em Ex. 20:10 também são sete: você, filho, filha, servo, serva, gado, e estrangeiro. A idéia parece ser clara: o Sábado para YAHWEH é o dia da plenitude das relações da criação com ela mesma e da criação com seu Criador.
Outro aspecto relevante do Sábado dentro do Decálogo é sua relação com Ex. 20:1 e a libertação do Egito que fica clara em Dt. 5:12-15. Pois enquanto o Faraó oprimia o povo com escravidão e trabalho, Deus provê descanso a cada sete dias: "Nesse mandamento Israel quebra decisivamente com o sistema faraônico de produção e consumo" (BRUGGEMANN, 1999, p. 50).

CONCLUSÃO

A forma do Decálogo aponta para seu conteúdo indivisível e seu contexto é um contexto de aliança entre Deus e Seu povo. Essa forma indivisível é um diálogo entre a ação do indivíduo para com Deus e dele com outros indivíduos. A inovação se dá exatamente pela igualdade dada aos dois aspectos dentro da estrutura de Ex. 20:2-17.
Já disposição de Ex. 20:8-11 demarcado por uma inclusão que o separa do restante do texto, também o estabelece como uma síntese dialógica do próprio Decálogo, uma vez que no Sábado, a relação entre os homens e deles com Deus é mediada pela imitação dEle pelos homens. Como coloca Abraham Heschel:

A arte de guardar o sétimo dia é a arte de pintar na tela do tempo a misteriosa grandiosidade do clímax da criação: com Ele santificou o sétimo dia, assim devemos nós. O amor pelo Sábado é o amor do homem pelo que ele e Deus tem em comum. Nossa observância do dia do Sábado é uma paráfrase da Sua santificação do sétimo dia. (HESCHEL, 2005, p. 16)


A estrutura de Ex. 20:8-11 firma que a nossa santificação do Sábado é a santificação de Deus, através do reconhecimento dEle como Criador, fonte de toda existência, e do meu vizinho/próximo como meu igual a quem devo respeito e amor (cf. Doukhan, 2004, p. 15, 18).

Shabbat Shalom!

*parte final de um artigo a ser publicado na revista parousia no final de abril

...

a poesia que está no poeta
é aquela que ainda não saiu dele.

a poesia que o faz poeta
é aquela que não é mais dele.

a poesia que persegue o poeta
é aquela que nunca sairá ou será dele.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

algumas inovações do Decálogo*

Dentro dessa unidade conceitual e literária do Decálogo, uma inovação importante tem destaque: as obrigações do homem para com seu igual são colocadas em nível de igualdade com os deveres dele para com seu Deus (cf. Cassuto, 2005, p. 240). A intenção, segundo Brueggmann, seria estabelecer que "toda a vida deve ser devotada ao Senhor da aliança" (BRUEGGEMANN, 1999, p. 25), o que quer dizer que todas as esferas da existência humana se relacionam com o Deus que liberta Israel do Egito. O Decálogo é a implementação da justiça divina na vida diária de Seu povo (cf. Brueggemann, 1997, p. 184).
Essa inovação fica evidente quando se compara, principalmente, as leis do AOM com a parte do Decálogo que trata da morte, adultério e roubo (Ex. 20:13-15). O assassinato, por exemplo, era proibido em todas as sociedades antigas, inclusive no Egito (cf. Walton, 1994, p. 157-158). No caso do adultério, era considerado uma infração contra o direito de posse do marido e no Egito e em Ugarit era descrito como um grande pecado (cf. Sarna, 1991, p. 114). Nas palavras de Umberto Cassuto:

Com relação as três proibições: Não matarás - não cometerás adultério - não furtarás, nós já afirmamos acima que, na verdade, não há nada novo em suas substâncias, pois em toda sociedade civilizada, assassinato, adultério e roubo são relatados como atos proibidos [...]. (CASSUTO, 2005, p. 246)


Ainda assim, esses mandamentos possuem elementos não usuais, inovadores: estão em forma absoluta e não trazem nenhum tipo de particularidade ou condições. O "não" antes de cada uma dessas ações indica, pela ausência de complemento, que a ação restritiva transcende qualquer situação, circunstância ou mesmo definição (cf. Cassuto, 2005, p. 246-247).
Isso quer dizer que a ação do homem contra outro homem é regulada não por questões sociais, de propriedade, de ordem, etc., mas por uma questão de resposta ao seu Deus. Ao pronunciar o Decálogo, Deus estabelece a igualdade de relacionamentos na obediência a Ele, ou seja, a medida do relacionamento vertical (Deus-homem) é de mesmo peso da do relacionamento horizontal (homem-homem).
Por isso, o resumo da lei dado por Jesus em Mt. 22:37-40 - amar a Deus e amar ao próximo - não implica duas áreas distintas da vida humana, mas dois aspectos complementares da existência do homem em relação ao seu Criador.
Ainda sobre algumas inovações do Decálogo, o décimo mandamento marca uma ampliação importante do conceito de relacionamento horizontal. O verbo utilizado aqui, por duas vezes, é חמד, que significa "desejar e tentar obter" (KOEHLER e BAUMGARTNER, 2001, p. 325), indicando que o homem deve ir além de evitar cometer adultério ou roubo da propriedade do seu vizinho. Ele deve também evitar desejar:

O significado, aparentemente, não é apenas que o desejo pode levar a uma ação criminosa, o qual deveria ser necessariamente proibido como uma medida preventiva, mas que o desejo em si mesmo constitui uma infração, em pensamento se não em ação. (CASSUTO, 2005, p. 240)


O décimo mandamento seria, portanto, uma espécie de resumo dos outros mandamentos referentes ao pecado contra o vizinho/próximo e, ao mesmo tempo, uma ampliação deles, pois vai além da ação e coíbe a atitude (cf. Durham, 1998, p. 298-299). As palavras de Jesus em Mt. 5:21-22 e Mt. 5:27-28 são, de certa forma, uma leitura desse mandamento e demonstram exatamente a repressão da atitude antes da ação.



*parte de um artigo a ser publicado na revista Parousia no final de abril/2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

nuances textuais do decálogo*


Sobre o próprio texto, uma série de nuances precisam ser ressaltadas, primeiro de aspectos gerais e depois de específicos. Em primeiro lugar, o Decálogo não é parecido com as prescrições habituais da lei bíblica, até por não precisar punições (cf. Chouraqui, 1996, p. 242). É, inclusive, a forma de categóricos imperativos e proibições apodícticas dos mandamentos em Ex. 20:3-17 mais um fator de relação com as formulações dos tratados de aliança do AOM (cf. Kline, 2012, p. 15).
Além disso, o fato de não apresentarem caráter casuístico demonstra serem uma espécie de padrão conceitual de conduta, ou seja, o objetivo é o bem-estar da comunidade e a motivação é positiva - a obediência a Deus, o Deus que libertou - e não negativa - a punição (cf. Fretheim, 1991, p. 221-222).
O texto de Decálogo começa com a expressão "teu Deus" (אֱלֹהֶ֑יךָ) em Ex. 20:2 e termina com "teu vizinho" (רֵעֶֽךָ) em Ex. 20:17. Essa, inclusive, parece ser a divisão que se tem adotado ao tratar do Decálogo: uma primeira parte se prende a ordens direcionadas ao relacionamento entre Deus e o homem e a segunda parte se constitui de ordens direcionadas ao relacionamento entre os homens (cf. Dorsey, 1999, p. 72).
Quanto a divisão dessas duas seções, alguns consideram que os quatro primeiros mandamentos estão direcionados a Deus e os seis últimos ao próximo (cf. Cassuto, 2005, p. 239). Outros sugerem que os três primeiros se orientam a Deus e os sete últimos ao próximo (cf. Brueggemann, 1999, p. 41-42).
A divisão interna do texto, entretanto, parece sugerir uma linha de forte coesão textual. O uso das expressões "teu Deus" e "teu próximo" como fatores de divisão parecem indicar isso, visto que "teu Deus" aparece cinco vezes nas cinco primeira palavras do Decálogo, e "teu vizinho" aparece apenas quatro vezes e nos dois últimos mandamentos (três no último e uma no penúltimo). Há ainda, referência a Deus nos primeiros cinco mandamentos e o nome de Deus não é mencionado nenhuma vez nos cinco últimos (cf. Sarna, 1991, p. 108).
O uso da partícula negativa "não" (לֹא) também é importante ao apontar uma estrutura coesa. A referida partícula aparece seis vezes nos primeiros três mandamentos ; uma vez no quarto mandamento (Ex. 20:10); nenhuma no quinto; quatro vezes do sexto ao nono (uma vez em cada um); e duas vezes no décimo mandamento. Ou seja, temos 13 "nãos" divididos ao longo do texto, seis antes do mandamento do sábado e seis depois, com um "não" central no sábado. Isso também realça o único mandamento completamente positivo, o quinto, que é o único a ter uma promessa.
A seção do quarto mandamento (Ex. 20:8-11), que é a mais longa (55 palavras), parece fazer clara referência aos dois tipos de relação que resumiriam o Decálogo: Deus-homem e homem-homem. Ele funcionaria, então como uma ligação entre as duas seções, pertencendo ao mesmo tempo as duas (cf. Doukhan, 2004, p. 18).
Ou seja, a divisão do Decálogo em 3+7 ou 4+6 parece ser mais temática do que textual e a conclusão é que a unidade literária de Ex. 20:2-17 é indivisível, o que significa que não é possível, pela estrutura do texto, determinar divisão. Martin Buber assinala isso dizendo:

Se eles forem considerados em sua conexão, será observado que não há algo como campos separados aqui, mas somente um indiferenciado campo de vida comum, o qual requer uma constituição contendo elementos religiosos e éticos para atingir crescimento uniforme. (BUBER, 1998, p. 131)


Meredith Kline corrobora essa idéia dizendo:

[...] todas as tradicionais sugestões sobre como a divisão deveria ser feita são sujeitas a objeção de fazerem violência a estrutura formal e lógica desse tratado. (KLINE, 2012, p. 17-18)

E, nesse sentido, é que a frase bíblica lapidar de Tiago parece fazer pleno sentido: "Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos" (Tg 2:10).



*parte de um artigo a ser publicado na revista teológica Parousia no final de abril...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

...

um refrão em uma idéia
uma frase em uma palavra
um poeta em uma poesia
uma música em uma nota

o que está em algo
não está somente nele mesmo

quarta-feira, 3 de abril de 2013

...

hoje resisto mais completamente

porque não é mais somente a minha resistência
que resiste

porque não é mais somente meu corpo
que resiste


hoje resisto mais completamente

porque não é mais somente minha vida
que resiste

porque não é mais somente o que sou
que resiste


hoje resisto mais completamente

porque minha resistência
é neles

porque meu corpo
é para eles

porque minha vida
é deles

porque o que sou
é por eles


hoje existo mais completamente