quarta-feira, 10 de abril de 2013

algumas inovações do Decálogo*

Dentro dessa unidade conceitual e literária do Decálogo, uma inovação importante tem destaque: as obrigações do homem para com seu igual são colocadas em nível de igualdade com os deveres dele para com seu Deus (cf. Cassuto, 2005, p. 240). A intenção, segundo Brueggmann, seria estabelecer que "toda a vida deve ser devotada ao Senhor da aliança" (BRUEGGEMANN, 1999, p. 25), o que quer dizer que todas as esferas da existência humana se relacionam com o Deus que liberta Israel do Egito. O Decálogo é a implementação da justiça divina na vida diária de Seu povo (cf. Brueggemann, 1997, p. 184).
Essa inovação fica evidente quando se compara, principalmente, as leis do AOM com a parte do Decálogo que trata da morte, adultério e roubo (Ex. 20:13-15). O assassinato, por exemplo, era proibido em todas as sociedades antigas, inclusive no Egito (cf. Walton, 1994, p. 157-158). No caso do adultério, era considerado uma infração contra o direito de posse do marido e no Egito e em Ugarit era descrito como um grande pecado (cf. Sarna, 1991, p. 114). Nas palavras de Umberto Cassuto:

Com relação as três proibições: Não matarás - não cometerás adultério - não furtarás, nós já afirmamos acima que, na verdade, não há nada novo em suas substâncias, pois em toda sociedade civilizada, assassinato, adultério e roubo são relatados como atos proibidos [...]. (CASSUTO, 2005, p. 246)


Ainda assim, esses mandamentos possuem elementos não usuais, inovadores: estão em forma absoluta e não trazem nenhum tipo de particularidade ou condições. O "não" antes de cada uma dessas ações indica, pela ausência de complemento, que a ação restritiva transcende qualquer situação, circunstância ou mesmo definição (cf. Cassuto, 2005, p. 246-247).
Isso quer dizer que a ação do homem contra outro homem é regulada não por questões sociais, de propriedade, de ordem, etc., mas por uma questão de resposta ao seu Deus. Ao pronunciar o Decálogo, Deus estabelece a igualdade de relacionamentos na obediência a Ele, ou seja, a medida do relacionamento vertical (Deus-homem) é de mesmo peso da do relacionamento horizontal (homem-homem).
Por isso, o resumo da lei dado por Jesus em Mt. 22:37-40 - amar a Deus e amar ao próximo - não implica duas áreas distintas da vida humana, mas dois aspectos complementares da existência do homem em relação ao seu Criador.
Ainda sobre algumas inovações do Decálogo, o décimo mandamento marca uma ampliação importante do conceito de relacionamento horizontal. O verbo utilizado aqui, por duas vezes, é חמד, que significa "desejar e tentar obter" (KOEHLER e BAUMGARTNER, 2001, p. 325), indicando que o homem deve ir além de evitar cometer adultério ou roubo da propriedade do seu vizinho. Ele deve também evitar desejar:

O significado, aparentemente, não é apenas que o desejo pode levar a uma ação criminosa, o qual deveria ser necessariamente proibido como uma medida preventiva, mas que o desejo em si mesmo constitui uma infração, em pensamento se não em ação. (CASSUTO, 2005, p. 240)


O décimo mandamento seria, portanto, uma espécie de resumo dos outros mandamentos referentes ao pecado contra o vizinho/próximo e, ao mesmo tempo, uma ampliação deles, pois vai além da ação e coíbe a atitude (cf. Durham, 1998, p. 298-299). As palavras de Jesus em Mt. 5:21-22 e Mt. 5:27-28 são, de certa forma, uma leitura desse mandamento e demonstram exatamente a repressão da atitude antes da ação.



*parte de um artigo a ser publicado na revista Parousia no final de abril/2013

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