Onde o morto deitou-se
quando vivo
(queimado de césio
até a medula)
na cama de hospital
não resta rastro
nem resta mesmo a cama
os lençóis
que o leito foi desfeito
e refeito para outros
que ali morreram
sem deixar marca
(pois tudo a lavanderia
apaga, menos
a memória
que vira cimento ferro alumínio
tubos de plástico)
mas
como mostrar os vestígios
da morte
os traços
do corpo tornado fósforo?
(a chama mortiça do câncer
a consumi-los)?
Pintando-os
na tela?
como?
arrastando a cama do hospital
para o museu de arte moderna?
expondo
o corpo
do morto?
a cama foi desfeita
o cadáver inumado
o quarto varrido
e desinfetado
É mesmo que nada
evocá-lo pintado
(na tela)
daí porque
só restou a Siron
imprimir as marcas da morte ausente
e vil
no leito de concreto
metáfora brutal
da vida que explodiu
*formato original alterado
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